ISSN 1516-8530
ISSN 2318-0404

Revista Brasileira de Psicoteratia

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Rev. bras. psicoter. 2017; 19(1):87-97



Artigo de Revisão

Sem o desejo da memória: reflexões sobre o esquecimento*

Without memory's desire: reflections upon forgetfulness

Rafael Mondrzak1; Roaldo Naumann Machado2; Nina Rosa Furtado3

Resumo

No trabalho que segue, inicialmente pretendo realizar uma breve revisão de alguns conceitos sobre memória expostos por Freud em seu trabalho intitulado "Projeto para uma psicologia científica" (1895) e utilizá-los ao longo do texto como um modelo proposto de pensamento, não somente para a memória, como também para o esquecimento. Segundo, partindo das ideias de Bion sobre memória e intuição, demonstrar, através de duas ilustrações clínicas, o quanto um possível estado que chamo "desmemoriado" está também a serviço da clínica diária como ferramenta intuitiva para o par que trabalha de forma analítica. Por fim, utilizando-me do conto "Funes, o memorioso" e da genialidade do escritor Jorge Luis Borges, expor alguns aspectos do risco que correríamos se perdêssemos a capacidade de esquecer, ou, ainda pior, se ganhássemos a capacidade de lembrar tudo.

Descritores: Inconsciente (psicologia). Memória. Teoria freudiana.

Abstract

In the following paper, firstly I intend to make a brief summary of Freud's concept about memory in his entitled work called Project for a Cientific Psychology (1895) and use it in this article as a theoretical thinking source not only for memory but also for forgetfulness. Secondly, using some of Bion's idea of memory and intuition illustrate, with two clinical cases, how a so called "unmemorious" state can be useful as an intuitive powerful tool for our daily clinical practice. At the end of the paper, employing the short story "Funes, the Memorious" by Jorge Luis Borges and it full geniality, I try to expose some of the risks that we could take if we had lost the capability of forgetting or, even worse, if we could be able to remember everything.

Keywords: Memory. Unconsciousness. Freudian theory.

 

 

INTRODUÇÃO

A importância que Freud atribui à função memória é perceptível em praticamente toda sua obra. Na primeira parte do "Projeto para uma psicologia científica" (1895)1 somos obrigados, logo de antemão, a ler sobre o que considera fundamental para que o desenvolvimento de uma teoria da mente seja digno de consideração: o fornecimento de uma explicação para a memória. Somente após ter esmiuçado inúmeras hipóteses tanto psicológicas como neurológicas para o tema que Freud focará parte do seu trabalho discorrendo sobre os múltiplos mecanismos para o esquecimento e para a repressão.

Pretendo me apropriar do trabalho de Freud como um modelo teórico-hipotético proposto para pensar tanto a memória como o esquecimento e, se possível, seu uso na prática clínica; acredito que apenas o conhecimento básico de algumas definições, como os subtipos de neurônios descritos por Freud (phi, psi e ômega), o conceito da barreira de contato e das facilitações, bastarão para avançarmos pela parte introdutória. Acho importante também destacar que abordarei o esquecimento como um ato neuropsíquico amplo e integrador entre mente e cérebro de extrema importância para o trabalho de orientação psicanalítica.

Sempre me interessei pela intersecção mente-cérebro. Acredito na verdade não em uma intersecção, mas sim em uma constante justaposição entre ambos. Explico-me: por intersecção utilizaríamos um termo matemático em que um conjunto de elementos pertence a dois ou mais conjuntos simultaneamente e, acredito, restringiríamos o estudo da mente e do cérebro. Por outro lado, através de uma justaposição, consideraríamos ambos em uma situação de adjacência ou contiguidade em que se encontram duas estruturas, sem que nada as separe. Justaposto ao potencial orgânico cerebral que envolve, desde neurotransmissores até predisposições biológicas, está a subjetividade dos processos mentais e seus requintes. Mesmo assim, neste trabalho não entrarei em detalhes neurofisiológicos dos processos de esquecimento ou nas categorizações e nos subtipos de memórias que sabemos existir e, portanto, passarei a maior parte do tempo pensando em mente, sabendo da existência de um cérebro justaposto. Também não falarei diretamente do recalcamento e da repressão como formas possíveis de esquecimento, apesar de estarem intimamente ligados ao processo inconscientemente, bem como outros conceitos psicanalíticos que sabidamente irão permear o trabalho.

Excluí alguns tópicos e delimitei algumas definições para a própria objetivação do trabalho. O que mais surgir da mente do leitor que eu não tenha me referido acima já faz parte do meu próprio esquecimento, da minha própria limitação e da criatividade alheia.


PROJETO PARA UMA PSICOLOGIA CIENTÍFICA: PRÉ-HISTÓRIA FREUDIANA DA MEMÓRIA

Ainda em 1873, portanto anteriormente ao texto de Freud citado acima, Camillo Golgi publicava, através de novos métodos de coloração na microscopia, o achado de que os neurônios não entravam em contato uns com os outros, mas sim se constituíam numa complexa rede que se comunica por zonas específicas (sinapses) entre elas2. Bombardeado por essas descobertas da microscopia e das influências intelectuais da época, Freud vai utilizar-se desses novos conhecimentos como base para o início do desenvolvimento de sua teoria dentro do "Projeto". Tal descoberta contribuiu diretamente para que Freud pudesse discorrer sobre o conceito das barreiras de contato e das facilitações, ao poder imaginar que existiriam, então, zonas de comunicação entre os neurônios, e não propriamente o contato direto entre eles. Devido a esse modelo, podemos atribuir um número muito maior de possíveis sinapses da rede neuronal, o que contribuiu para a ampliar o estudo da psique. Da mesma forma, podemos pensar o inverso: se os neurônios estivessem em contato direto uns com os outros, imagino que teríamos uma cadeia finita de associações e seríamos dominados pela exclusividade dos processos lógicos, tal como a computação o faz. Provavelmente pouco teríamos a falar sobre o afeto, sobre as associações livres, sobre os esquecimentos e sobre a memória. Meu trabalho, acredito, pararia neste parágrafo. Felizmente, somos mais do que somente lógica. Meu fascínio encontra-se exatamente nessa esfera.

Como falei, não revisarei os conceitos trabalhados por Freud dentro desse seu trabalho. Utilizarei brevemente o início de seu escrito principalmente no que concerne às suas definições para a memória.

Ela é introduzida principalmente através do conceito das facilitações (bahnung) existentes entre os neurônios que denominou psi. Segundo Freud, os neurônios do tipo psi são impermeáveis, capazes de oferecer resistência à energia (Qn) que passa entre eles e capazes de permanecer alterados após suas excitações. Diferentemente, os neurônios phi são permeáveis, não possuem a capacidade de reter informações e sequer de oferecer resistência à passagem de Qn. Esse último sistema de neurônios estaria a serviço da percepção, enquanto o primeiro a serviço da memória. Freud ainda irá agregar um terceiro sistema de neurônios (ômega), que atribuiria qualidades à experiência vivida e, portanto, estariam ligados diretamente a sensações conscientes.

O conceito das facilitações (bahnung) é crucial para o entendimento freudiano da função memória. Pelos múltiplos caminhos que uma Qn psíquica pode optar em seguir entre os neurônios psi - caminhos esses predeterminados pelas resistências e facilitações entre essas múltiplas conexões - que compreenderíamos do modelo teórico-hipotético proposto por Freud a exigência da memória ao psiquismo.

No entanto, não seria suficiente explicar o processo somente pelas facilitações. Freud amplia seu estudo e agrega também marcas que essa Qn deixa pelo caminho trilhado nos neurônios psi. São esses possíveis traços (rastros) deixados por essa passagem de energia que irão imprimir infinitas sensações ao nosso psiquismo e poderão ser evocadas, ou não, futuramente pela lembrança. Segundo Knobloch3: "[...] representações do inconsciente não são senão traços mnêmicos investidos e protegidos pelo recalcamento. São esses traços que estariam à disposição para um possível rearranjo conforme novas circunstâncias fossem agregadas à memória" (p. 3).

Garcia Roza4 resume bem o postulado por Freud da seguinte forma: "quando um determinado neurônio psi, A, é investido simultaneamente com um neurônio B, estabelece-se entre eles, pela simultaneidade AB, um investimento colateral pela facilitação na barreira de contato AB. O caminho fica facilitado, à diferença de outros caminhos que não são percorridos pela excitação devido à resistência das barreiras de contato" (p. 96). O que proponho é analisar exatamente os caminhos que não são percorridos (e a sua importância), os quais associaríamos ao esquecimento.

Mas como podemos nos dirigir à função do esquecimento para a clínica diária a partir dos conceitos vistos acima? Creio que os exemplos da experiência de dor e de angústia radicais podem servir como uma possível introdução aos processos de esquecimento. Por radicais, tento diferenciar das experiências em que dor e angústia permitem recordação e elaboração e, portanto, não demandam do psiquismo a tentativa de forclusão e expulsão. Segundo Freud, dentro de seu modelo, quando grandes quantidades de energia passam por phi fazendo sua irrupção, diretamente aos neurônios psi, caracteriza-se inicialmente a experiência da dor. Sabemos, da fisiologia, que em situações de extrema dor, nosso sistema psíquico possui a capacidade de realizar um shutdown5. Freud, alguns anos após, corroborou para o mesmo ao descrever sobre as capacidades de fuga do psiquismo através da diferenciação e descrição entre instinto e estímulo: "Os estímulos externos impõem uma única tarefa: a de afastamento; isso é realizado por movimentos musculares, um dos quais finalmente atinge esse objetivo e, sendo o movimento conveniente, torna-se a partir daí uma disposição hereditária" (Freud, 1915, p. 126). Se nos permitirmos ver dessa forma e juntarmos ambas as exposições poderíamos perceber o esquecimento utilizando de sua máxima capacidade frente à experiência traumática dor-angústia. Apesar de não ter respondido à primeira pergunta, outro questionamento surge e levará o trabalho adiante: como o esquecimento contribui para a memória, além de permitir fugir da dor e gerar mais e novos armazenamentos?

Penso que esse funcionamento esteja diretamente ligado ao acesso a novas vias (traços) de memória anteriormente inacessíveis através de breves fugas do logicismo - doutrina que considera as formulações lógicas como sendo suficientes em si mesmas e isentas de qualquer interferência de ordem psicológica. Só seria possível acessá-las após o esquecimento de vias anteriores inconscientemente preestabelecidas e que, portanto, receberiam maiores Qn, ainda que não prazerosas. Podemos imaginar da seguinte forma: todos sabemos que as estrelas se encontram no céu dia e noite. No entanto, necessitamos da escuridão da noite para que possamos vê-las, ainda que saibamos de sua existência durante a luz do dia. À escuridão, refiro-me aos esquecimentos e aos processos ilógicos que nos permitiriam novas associações; às estrelas, às vias e conexões psíquicas; ao sol, como a memória, a vigília e a lógica que nos cega de podermos, pelo menos, tentar acessar novos caminhos dentro de nosso psiquismo. Precisamos de campos escuros para que possamos enxergar novas vias, memórias ou associações. Enquanto nos permitirmos, dentro do possível, estados desmemoriados, imagino podermos ter acesso com mais facilidade a outras vias psíquicas ou associações possíveis capazes de contribuir à elaboração e à mudança de estado. Existe na lógica e na consciência forças extremas que nos afastam da percepção do que é inconsciente, onde o armazenamento de traços de memórias de forma ilógica e atemporal reside, e, portanto, também nos afastam dos conflitos psíquicos a serem analisados.

A fuga do pensamento lógico, temporizado e organizacional é o que venho tentando descrever como um suposto processo fundamental ao tratamento analítico.

Frente às limitações de cada dupla analítica e ao material trazido pelo paciente, devemos imaginar que ambos passam por processo semelhante de tentativa de um trabalho unicamente lógico. Portanto, consideraríamos que a dupla deva constantemente lutar de forma mais pacienciosa e harmoniosa possível para conseguir passar por irrupções entre phi e psi repletas de dor como via possível à mudança psíquica. Cabe ao setting e ao terapeuta o papel de propor uma redução nessa quantidade de energia inicialmente para evitar a irrupção. O paciente, de certa forma, espera que o terapeuta possa propor e suportar o esquecimento de vias conhecidas anteriormente, a fim de que possa haver ressimbolizações em outras vias sem que haja rupturas no processo.


BION E OGDEN DESMEMORIADOS: DOIS BREVES EXEMPLOS CLÍNICOS

A partir de Freud, muitos outros modelos foram sendo propostos para pensar o uso ou não uso da memória.

Bion trabalhou de forma rica e precisa dentro desse avanço. Descreveu em seus textos a memória consciente do analista e os seus desejos frente ao paciente como uma defesa ao processo6. A atenção flutuante descrita por Freud7 não deixa de se assemelhar, em parte, a essa fuga do processo psíquico lógico como ferramenta de trabalho. Com ela, viria junto um possível estado "desmemoriado" do terapeuta a que venho me referindo. Voltarei a falar um pouco mais do trabalho de Bion em breve.

Imagino que, se durante um trabalho analítico, tanto paciente como terapeuta não se permitirem entrar em momentos de escuridão e esquecimentos ao longo do tratamento, será difícil evoluir com novas associações. O paciente dificilmente enxergará outras vias para sair do único modelo de pensamento que conhece, que já não o serve mais, e dificilmente permitirá a construção e o reconhecimento de novos espaços por onde possam percorrer seu psiquismo. Poderá sentir-se sem evoluir no tratamento, sem conhecer nada de novo em si próprio e sem sentir que está havendo algum tipo de mudança psíquica. Se ambos ficarem somente amarrados no processo da memória e no "tentar lembrar", há grande chance de ficarem somente examinando a consciência, durante a luz do dia, provocando possivelmente as sensações que descrevi.

O meu segundo coletivo de questionamentos migra para a técnica psicoterápica. A quem cabe essa tentativa de incluir possíveis esquecimentos na sessão? Podemos atribuir parcelas conscientes a isso? O paciente deve obrigatoriamente conseguir esquecer vias conhecidas para que possa associar? O terapeuta deve conseguir esquecer vias projetadas diretamente do paciente? Como agregar a fuga da lógica a um tratamento?

Conforme citado, tentarei através de dois rápidos exemplos responder, um pouco, a alguns desses questionamentos.

Em um fragmento retirado de um caso clínico8 temos um exemplo de uma paciente que chora compulsiva e repetidamente sessão após sessão por uma determinada causa. É incapaz de associar a qualquer outro evento e também de captar qualquer sensação adjunta ao choro. Sente-se extremamente incompreendida pelo terapeuta e não entende por que, ao associar o choro a uma suposta causa, que lhe parece plausível para justificar seu sofrimento, não sente alívio algum. Essa situação transcorria há meses e aparentemente mostrava-se sem resolução ou elaboração. Podemos inferir dessa incompreensão frente ao choro a possibilidade de ter ocorrido irrupções pelo excesso de dor causada por uma ou múltiplas experiências vividas, como mencionado acima, capaz de manter tal estado sob uma certa inércia dolorosa, ou ainda sob uma única causa que seria capaz de explicar seu choro, mas não o é. O estado de sofrimento conserva as vias inconscientes, que poderiam permitir a ressignificação do atual estado psíquico da paciente, ainda não acessíveis à consciência em uma constante procura pela memória a ser ligada com o afeto: o trabalho psicoterápico e analítico propõe um suposto desligamento causa-efeito lógico e estereotipado. A esse processo, imagino a busca ativa por memórias como resistência e o esquecimento como ferramenta produtiva ao tratamento.

Dentro do conceito de trauma, Mondrzak et al., em um trabalho intitulado "Trauma, causalidade e tempo: algumas reflexões", discorrem de forma muito criativa e significante a respeito: "este 'desarranjo', em termos de funcionamento do sistema psíquico, se traduziria por uma diminuição da instabilidade, levando o sistema para o equilíbrio, com um enrijecimento defensivo e perda de plasticidade e de condições de encontrar novas soluções. Assim, dentro desta linha de raciocínio, 'trauma' seria qualquer evento, interno ou externo, que leve o sistema ao equilíbrio" (p. 4)9. A paciente acima equilibra-se em uma corda bamba: com os braços abertos tenta manter-se, de um lado, com o choro e o sofrimento, e, do outro, com sua suposta causa e justificativa lógica, sem conseguir mover-se.

No entanto, para a possibilidade de uma outra representação se associar a essa para a compreensão do quadro, imagino ser preciso que haja um novo esquecimento da via já previamente escolhida, de forma inconsciente e vivida pelo paciente frente a essa experiência. Tanto paciente como terapeuta terão que batalhar mutuamente para atingir um suposto esquecimento dessa via rompida entre phi e psi incapaz de ser simbolizada. Borges cita que algum grau de esquecimento é necessário para que se possa ter uma vida útil10. É preciso esquecer para poder pensar; para poder fazer generalizações, sem as quais é impossível desenvolver qualquer atividade cognitiva.

Tecnicamente pensando, no exemplo citado acima poderíamos incluir a atividade de um esquecimento real como ferramenta de trabalho. Seria através de esquecimentos tolerados e vivenciados pelo terapeuta e pela paciente que existiria a possibilidade de conseguir acessar novos caminhos para a representação desse estado de dor psíquica incompreensível para a dupla. Muitas vezes, de forma onipotente, imaginamos saber a que representações estariam ligados o sofrimento; mas de nada adiante se o caminho até elas não for traçado pelo próprio paciente. Inútil estarmos em dois, perdidos na selva, cada qual tentando desbravar um novo caminho para a vila mais próxima. O máximo que podemos fazer é seguir, em fila, atrás do paciente e dos seus caminhos propostos e iluminar com uma lanterna para que ele possa ver sua própria sombra projetada e por onde segue. Quando a dupla que trabalha dentro do setting está em mútuo sofrimento, sentindo-se engessada durante as sessões, sinto que há um pedido para que se tente novos esquecimentos de trajetos já percorridos pelo par e que não levaram à modificação do estado psíquico do paciente.

Ainda na tentativa de resposta aos questionamentos, Ogden em um trabalho intitulado "Intuiting the truth of what's happening: on Bion's 'Notes on memory and desire'" (2015)11, exemplifica, após uma revisão minuciosa, quase trecho a trecho o texto original do Bion6, brilhantemente e de forma muito completa, o que pretendi revisar brevemente nas páginas acima. Para o autor, o texto original de 1967 fala a respeito de dois aspectos: (a) do tornar-se intuitivo com a realidade psíquica do paciente e (b) de preocupar-se somente com o presente e com o que "está acontecendo", e não com o que já aconteceu ou com o que vai acontecer, portanto libertando o analista de sua dependência da memória e do desejo. Logo, poderíamos atribuir uma característica intuitiva ao esquecimento necessário entre a dupla para que determinados momentos de um tratamento transcorram de forma mais harmoniosa.

Aqui deve existir uma pequena pausa antes de citar o exemplo propriamente dito. Retorno a Bion, pois acredito em um link entre o que o autor expôs na necessidade de um terapeuta entrar a cada nova sessão "sem memória e sem desejo" com o processo de esquecimento. Não estou propondo nada de diferente do que já existe na literatura, mas acho que poderia explicar-me de forma bem simples, brincando e alterando a frase do Bion, da seguinte forma: deveríamos entrar a cada nova sessão sem o desejo da memória. Apesar de juntar o que Bion propôs inicialmente como dois objetivos separados a serem seguidos pela terapeuta, imagino que devemos tentar perder o desejo da memória dentro das sessões, ou pelo menos morrer tentando. Somos mestres no esquecimento e no recalcamento, mas o utilizamos dentro das sessões como resistências próprias ou projetadas do paciente, e não como uma ferramenta a ser ora tolerada, ora utilizada. Ao contrário, batalhamos uma vida tentando melhorar nossa memória e esquecemos de usar nosso esquecimento durante nossa vida psíquica útil. Com isso em mente, creio que seria possível termos acesso, sob um "treino intuitivo", a associações mais poderosas e determinadas sessões poderiam transcorrer com mais fluidez e menos opacidades.

Voltando ao artigo que mencionei há pouco, Ogden ilustra, através de um caso clínico seu, a experiência proposta por Bion da ausência da memória na sessão como uma poderosa ferramenta de elaboração. O que mais chama a atenção no caso apresentado foi a sua percepção da espontaneidade, da musicalidade e da profundidade em que a sessão transcorreu, características que vai atribuir a uma sessão desmemoriada.

Sua paciente estava em análise cinco vezes por semana, iniciada após o estabelecimento de um episódio depressivo grave subsequente a um aborto sofrido - casada, havia desistido de ser mãe, pois não acreditava na capacidade de amor do próprio corpo para que pudesse gestar após ter vivido tal perda. Antes de uma determinada sessão, ao olhar a paciente em sua sala de espera, Ogden tem a súbita sensação de que deveria mandá-la ver outra pessoa e que ela estaria no local errado. Reluta com esse pensamento, pois até então sentia muita vontade de tratá-la e aguardava ansiosamente suas sessões. Nessa mesma consulta, desconfortável, quando a paciente se deita no divã, Ogden tem o impulso em dizer "eu te amo". A paciente segue e relata sobre um sonho em que havia perdido algo, no entanto não sabia o quê. O analista fala: "Me amar é algo tão terrível assim que tu tens que deixar em outro lugar quando vens me ver?"

Em seu artigo, segue esse diálogo em maiores detalhes, mas paro por aqui e pulo para sua possível compreensão ainda que esteja, com absoluta certeza, assassinando grande parte do artigo, ou todo ele. Ogden sentiu-se ao longo dessa sessão que estava em um funcionamento extremamente espontâneo (diferente do seu habitual, em que pensaria cuidadosamente suas interpretações?), repleto de sentimentos de culpa e tristeza pelo aborto sofrido pela paciente. Relata que, enquanto falava do seu amor por ela, imaginou representar inconscientemente três partes: seu bebê morto propriamente, o bebê morto existente dentro da paciente e a representação do bebê morto dentro dele mesmo sem em nenhum momento ter lembrado ou pensado em tal aspecto no transcorrer da sessão.

O que Ogden teve que esquecer para que essa sessão pudesse ocorrer? Acredito que ele deva ter sentido esse esquecimento, esse estado desmemoriado e captado - o internamente através da sua percepção e capacidade em ser espontâneo com a paciente (não lógico). Sobre essa sessão, ressalta e aqui cito ipsis litteris: "The analytic experience that I have just described occurred, I believe, in the absence of memory". E ainda: "neither the patient nor I was engaged in 'remembering the past', but the past, the death of the baby, was nonetheless very much alive in the present moment of the analysis" (p . 299). Eric Kandel destacaria esse momento vivenciado pela dupla como "moment of meaning": determinado momento de interação entre paciente e analista que representa o alcance de um novo conjunto de memórias implícitas ao qual permeia a relação terapêutica e a progride a um novo nível mais profundo e íntimo12. Esse processo, creio eu, só pôde ocorrer pelos inúmeros esquecimentos vivenciados pela dupla durante a sessão e o deslizamento psíquico mútuo da lógica para a ilógica.


"FUNES, O MEMORIOSO"

Por fim, quero agregar ao trabalho um pouco de criatividade e imaginação ao tentarmos pensar o processo oposto a que venho discorrendo; ou seja, o de uma possível perda da capacidade de esquecer e suas consequências ao nosso psiquismo. Quem faz isso de forma genial é Jorge Luis Borges, em "Funes, o memorioso"13.

No conto, o personagem, após sofrer um acidente de cavalo, perde a capacidade de esquecer. Borges, com esse fato, já surpreende e intriga nossa memória de forma quase imperceptível, pois esperaríamos que, após um acidente, a sequela fosse de quadros amnésicos; assim como a nossa memória conhece dessas tragédias mundanas. Nas próprias palavras do autor: "disse-me que antes daquela tarde chuvosa em que o azulego o derrubou, ele havia sido o que são todos os cristãos; um cego, um surdo, um tolo, um desmemoriado. [...] Dezenove anos havia vivido como quem sonha: olhava sem ver, ouvia sem ouvir esquecia-se de tudo, de quase tudo. Ao cair, perdeu o conhecimento; quando o recobrou, o presente era quase intolerável de tão rico e tão nítido, e também as memórias mais antigas e triviais" (p. 104).

Funes adquire a capacidade de ter todas as suas conexões ativas, todas suas associações - suas barreiras de contato não oferecem resistência e todos os traços são armazenados sem nenhum esforço. O personagem não precisa esquecer para poder lembrar. Consegue lembrar até o último detalhe de um dia inteiro de sua vida, mas para fazê-lo requer outro dia inteiro de sua vida. Sua memória plena é o extremo oposto do pensamento como conhecemos, que supõe abstração, diferenciação e hierarquização. Ao perder a capacidade de esquecer, nossa memória se torna uma simples coletora de lixos, lógica e exclusivamente racional.

Julio Pimentel Pinto expressa de forma muito clara parte do que disse até aqui: "[...] prisioneira de sua implacável memória, Funes torna, por um caminho difuso, inútil a própria memória que cultua. Incapaz de escolher e sobretudo de esquecer, vive condenado eternamente - como sua vida postado no tempo absoluto à repetição invariante, a impossibilidade de ser original, livre na escolha e na rejeição"14. Ainda, em outra revisão do conto, Beatriz Sarlo destaca o personagem como padecendo à própria percepção, solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente impreciso. A lembrança plena deixa Funes fora do vivenciar de novas experiências15.

O desespero que o personagem vive se encontra, acredito, em parte pelo fato de não possuir a dimensão emocional e afetiva da memória implícita. A memória explícita nada mais é do que um disco rígido com dados guardados; podemos acessar esses dados através de combinações pré-estipuladas de registros de acesso, assim como fazemos uma sequência de comandos que desencadeia uma nova sequência de ordens para abrir arquivos em um computador. Para acessar a memória implícita - se é que podemos chamar assim, "acessar" - a diferença reside no fato de termos que utilizar o afeto, as emoções e o processo criativo. No campo analítico deve existir, imagino, uma necessidade relativa da combinação quase perfeita entre o acesso explícito dessa memória através do diálogo estabelecido entre a dupla aliado à subjetividade das experiências emocionais. E, para tudo isso, o esquecimento e a descoberta de novas vias de associação e simbolização têm papel fundamental. Novamente voltamos a um resumo do texto, retornamos à necessidade do balanço dialético racional-irracional ou ainda lógico-ilógico para permitir o avanço do processo psicanalítico.


REFERÊNCIAS

1. Freud S. Projeto para uma psicologia científica. In: Publicações pré-psicanalíticas e esboços inéditos. Standard. Rio de Janeiro: Imago; 1895. p. 341-481.

2. Golgi C. Sulla struttura della sostanza grigia del cervelo. Gazz Med Ital. 1873;33(1):244-246.

3. Knobloch F. O tempo do traumático. São Paulo: Educ; 1998.

4. Garcia-Roza LA. Introdução à metapsicologia freudiana 1. 7ª ed. Rio de Janeiro: Zahar; 1991.

5. Linzer M, Pontinen M, Gold D, Divine G, Felder A, Brooks W. Impairment of physical and psychosocial function in recurrent syncope. J Clin Epidemiolgy. 1991;44(1):1037-1043.

6. Bion W. Notas sobre memória e desejo (1967). In: Spillius EB, ed. Melanie Klein hoje: desenvolvimento da teoria e da técnica. Rio de Janeiro: Imago Editora; 1990. p. 30-34.

7. Freud S. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. In: O caso Schreber, artigos sobre técnica e outros trabalhos. Standard. Rio de Janeiro: Imago; 1912. p. 125-133.

8. Celina M, Peixoto L. O projeto de uma memória freudiana: uma análise acerca da constituição dessa noção nos primórdios da psicanálise. Transformação, Formação, Ação. 2012;35(2):257-275.

9. Mondrzak V, Lewkowicz A, Duarte A, et al. Trauma, causalidade e tempo: algumas reflexões. In: XXIII Congresso Brasileiro de Psicanálise; 2011 set 7-10; Ribeirão Preto, SP, Brasil.

10. Borges JL. Otras inquisiciones. Buenos Aires: Emece; 1960.

11. Ogden T. Intuiting the truth of what's happening : on Bion's "Notes on memory and desire". Psychoanal Q. 2015;LXXXIV(2):285-306.

12. Kandel ER. Biology and the future of psychoanalysis: a new intellectual framework for psychiatry revisited. Am J Psychiatry. 1999;156(4):505-524. doi:1535-7228.

13. Borges JL. Ficções. 10ª ed. São Paulo: Companhia das Letras; 1944.

14. Pinto JP. Borges, uma memória do mundo: ficção, memória e história em Jorge Luis Borges. São Paulo: Estação Liberdade;1995.

15. Sarlo B. Borges, a writer on the edge [internet]. Londres: Verso; 1993. Disponível em: http://www.borges.pitt.edu/bsol/bsi0.php.










1. Médico, especialista em psiquiatria, candidato aspirante à Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA). Porto Alegre, RS, Brasil
2. Psicanalista, membro efetivo da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre
3. Psicanalista, membro associado da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre. Professora do Programa de Residência Médica em Psiquiatria da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Chefe do Ambulatório de Psicoterapia Analítica (AMPA) do Hospital São Lucas da PUC

Instituição: Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

Correspondência
Rafael Mondrzak
Rua Alvares Machado, 44 Sala 404, Petrópolis
90630-010 Porto Alegre, RS, Brasil
mondrzak@hotmail.com

Submetido em: 31/01/2017
Aceito em: 23/04/2017

* Trabalho de Conclusão referente ao término do primeiro ano do Curso de Formação Psicanalítica pelo Instituto da SPPA.

 

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