ISSN 1516-8530
ISSN 2318-0404

Revista Brasileira de Psicoteratia

Submissão Online Revisar Artigo

Rev. bras. psicoter. 2017; 19(1):99-103



Resenha

Dor e sofrimento da adolescente violentada sexualmente: resenha do filme "O silêncio de Melinda"

Pain and suffering of sexually violent adolescent: synopsis of a movie "The silence of Melinda"

Carolina Caruccio Montanari

Resumo

Trata-se de uma resenha sobre o filme "O silêncio de Melinda", dirigido por Jessica Sharzer e lançado em 2004. Traz discussões sobre a trama vivida pela protagonista - violência contra a mulher, abuso sexual, trauma e solidão. O isolamento é um mecanismo de defesa vivenciado em situações como o estupro. A comunicação não verbal, expressa através do comportamento de Melinda, deve ser observada em mulheres, principalmente adolescentes, na busca de alterações que possam estar associadas a situações desagradáveis vivenciadas. Os profissionais de instituições educativas bem como os trabalhadores do setor da saúde devem trabalhar em conjunto para a prevenção e atenção das demandas de saúde mental.

Descritores: Adolescente. Violência sexual. Estresse psicológico.

Abstract

This is a review of the film "The Silence of Melinda" directed by Jessica Sharzer and released in 2004. It brings discussions about the plot lived by the protagonist - violence against women, sexual abuse, trauma and loneliness. Isolation is a defense mechanism experienced in situations such as rape. Non-verbal communication, expressed through Melinda's behavior, must be observed in women, especially adolescents, in the search for changes that may be associated with unpleasant situations experienced. Professionals from educational institutions as well as health workers should work together to prevent and address mental health demands.

Keywords: Adolescent. Sexual violence. Stress, psychological.

 

 

INTRODUÇÃO

O filme "O silêncio de Melinda", dirigido por Jessica Sharzer e lançado em 2004, inicia com uma cena bastante polêmica em que a protagonista Melinda desenha grades em sua boca, como se tivesse que guardar um segredo a sete chaves.

Melinda é uma adolescente que durante suas férias é violentada sexualmente por um colega em uma festa da escola. A violência pode ser exercida através de uma agressão física, sexual, psicológica e econômica1. É altamente prevalente quando se trata de violência contra a mulher2, e é considerada um problema de saúde pública. Segundo a Organização Mundial de Saúde, violência é todo o tipo de ação em que há a utilização proposital de força física ou poder, real ou como ameaça, contra um indivíduo, grupo ou comunidade, provocando ou capaz de provocar ferimento, morte, privação e prejuízo no desenvolvimento3.

No caso de Melinda, desde o acontecimento da violência sexual ela se isola dos amigos e da família e modifica alguns comportamentos. Viver a adolescência não é uma tarefa fácil. Além de transcorrer por uma fase de desenvolvimento humano, caracteriza-se por profundas mudanças biopsicossociais que envolvem o meio familiar e social em que o indivíduo vive. Apesar de ser uma etapa que apresenta boas oportunidades, encontra-se também cercada por diversos riscos, entre os quais a violência4.


DISCUSSÃO

A ocorrência de eventos traumáticos ou a exposição à violência são fatores estressores que podem ser encontrados na adolescência e, dependendo do contexto, ser eventos comuns. As consequências decorrentes da violência podem ser comportamentais, físicas, cognitivas e/ou emocionais. A gravidade das consequências irá configurar o evento como traumático e dependerá principalmente de alguns fatores, a saber: contexto sociocultural; interpretação do fato em si; reação da vítima e das pessoas ao seu redor; e o aparato da rede social5.

No filme em discussão, as cenas fazem alusão ao isolamento enfrentado pela protagonista. O isolamento é um mecanismo de defesa que protege a pessoa dos afetos e impulsos geradores de ansiedade. Geralmente é percebido num comportamento que está associado à baixa autoestima6. No filme, Melinda utiliza o isolamento e distanciamento social como forma de proteção e distanciamento dos fatos. Porém, ao contrário do que se pensa, o isolamento e o fato de não contar a ninguém as situações desagradáveis vividas trazem mais angústia, e isso com o passar do tempo pode tornar-se um problema mais grave a ser enfrentado.

Além dos sentimentos decorrentes do trauma sofrido que a atormentam internamente e da própria censura que ela se coloca, a protagonista apresenta sinais e sintomas depressivos. Não consegue contar a ninguém o que aconteceu naquela terrível noite. Seus colegas a recriminam, pois na ocasião em que aconteceu o estupro a garota chamou a polícia para terminar com a festa. Os colegas não entendem o motivo verdadeiro pelo qual Melinda chamou a polícia, acreditam ter sido por traição a eles. Nesse caso, a violência sofrida foi um fenômeno que causou prejuízo e sofrimento a Melinda. O seu desenvolvimento parece ficar estagnado após o acontecimento. Suas relações sociais são afetadas, o que é percebido diante do seu embotamento. E o fato de ela não expressar a ninguém os acontecimentos reflete suas representações sociais, o meio talvez opressivo em que ela vive1.

Fica evidente o terrível trauma que Melinda sofreu naquela noite. Além do isolamento, o desempenho de Melinda na escola cai. Ninguém percebe a mudança drástica de comportamento da garota. Os pais apenas a cobram, sem ter a sensibilidade de perceber que algo estava acontecendo na vida dela e sem parar para conversar. São comuns adolescentes vítimas de violência manifestarem distúrbios do comportamento, agressividade, distúrbios do humor e sintomas de estresse pós-traumático, como pesadelos, flashbacks, problemas clínicos de saúde e dificuldades escolares relacionadas ao desempenho cognitivo7-9.

A comunicação não verbal, expressa através do comportamento de Melinda, deve ser observada, principalmente em adolescentes, na busca de alterações que possam estar associadas a situações desagradáveis vivenciadas. A violência sexual constitui-se como uma das mais profundas violações ao ser humano. Ela é uma forma extrema de agressão e de desconstituição da humanidade10.

Silenciar é mais comum do que se pode pensar em casos de violência sexual. Os números poderiam ser bem maiores se todas as mulheres denunciassem. Porém, não é fácil admitir ter sofrido uma violência, ainda mais quando o violentador é alguém conhecido - como é o caso de Melinda. Durante a trama a protagonista expressa perturbações frente às lembranças da violência sexual sofrida, desespero, sentimento de traição, solidão, falta de coragem, censura e tortura. A violência como desencadeador de estresse impacta fortemente na vida da vítima, deixando-a vulnerável ao desenvolvimento de distúrbios emocionais e problemas de comportamento11. Ambientes violentos, relações familiares com conflitos e com pouco suporte são os principais fatores associados à manifestação de sofrimento psíquico. Um número significativo de adolescentes sofre violência sexual, porém são poucos que revelam para alguém ou até notificam os casos1.

É comum os adolescentes buscarem apoio nas escolas e com professores, como é o caso de Melinda. Contar a alguém não é uma tarefa fácil. É constrangedor e ameaçador. A família nem sempre será o apoio do adolescente violentado, já que, muitas vezes, o agressor pode fazer parte dela. Nesses casos, a escola pode ser um local ideal para detecção, intervenção e promoção de fatores de proteção que diminuam a violência e seu impacto sobre o desenvolvimento dos adolescentes12.

Além disso, o setor de saúde, através da rede de atenção básica, representa um importante aliado na identificação de casos e é capaz de detectar os sinais de violência psíquica. Nesses ambientes é possível promover o direito à saúde integral dos adolescentes, confirmando ser um dos principais setores sociais capazes de atuar preventivamente sobre as formas de violência sofridas e praticadas pelo grupo familiar13.

Contudo, todos os espaços em que os adolescentes percorrem - escolas e serviços de saúde - precisam estar atentos para identificar casos, buscando proteger o adolescente, já que os sinais de vitimização tendem a ser visíveis e detectáveis pelos adultos. Os profissionais nos diferentes âmbitos de inserção de adolescentes e o estabelecimento do trabalho em rede nas diferentes instituições educativas e de saúde devem trabalhar em conjunto para a prevenção e atenção das demandas, em especial dos aspectos de saúde mental.


REFERÊNCIAS

1. Heise L, Ellsberg M, Gottemoeller M. Ending violence against women. Popul Rep L. 1999;11:1-43.

2. Schraiber LB, D'Oliveira AFPL, Couto MT, Hanada H, Kiss LB, Durand JG et al. Violência contra mulheres entre usuárias de serviços públicos de saúde da Grande São Paulo. Rev Saúde Pública. 2007;41(3):359-367.

3. Silva GL. Da família sem pais à família sem paz: violência doméstica e uso de drogas. Recife: Bagaço; 2006.

4. Melo MCB, Barros EN, Almeida AMLG. A representação da violência em adolescentes de escolas da rede pública de ensino do Município do Jaboatão dos Guararapes. Ciênc Saúde Colet. 2011;16(10):4211-4221.

5. Teixeira-Filho FS, Rondini CA, Silva JM, Araújo MV. Tipos e consequências da violência sexual sofrida por estudantes do interior paulista na infância e/ou adolescência. Psicologia & Sociedade. 2013;25(1):90-102.

6. Kaplan HI, Sadock BJ, Gebb JA. Compêndio de psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. 7ª ed. Porto Alegre: Artes Médicas; 1997.

7. Osofsky JD. The effects of exposure to violence on young children. American Psychologist. 1995;50(9):782-788.

8. McFarland JM, Groff JY, O'Brien JA, Watson K. Behaviors of children who are exposed and not exposed to intimate partner violence: an analysis of 330 black, white, and Hispanic children. Pediatrics. 2003;112:202-207.

9. Rosenthal BS, Wilson WC. Impact of exposure to community violence and sychological symptoms on college performance among students of color. Adolescence. 2003;38:239-249.

10. Veronese JRP. Violência e exploração sexual infantojuvenil: uma análise conceitual. Psicologia Clínica. 2012;24(1):117-133.

11. Poletto M, Koller SH, Dell'Aglio DD. Eventos estressores em crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social de Porto Alegre. Ciênc Saúde Colet. 2009;14(2):455-466.

12. Viodres I, Silvia R, Ristum M. Violência sexual: caracterização e análise de casos revelados na escola. Estudos de Psicologia. 2008;25(1):11-21.

13. Abranches CD, Assis SG, Pires TO. Violência psicológica e contexto familiar de adolescentes usuários de serviços ambulatoriais em um hospital pediátrico público terciário. Ciênc Saúde Colet. 2013;18(10):2995-3006.










Enfermeira. Doutoranda em Medicina: Ciências Médicas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS, Brasil

Instituição: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil

Correspondência
Carolina Caruccio Montanari
Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Rua Ramiro Barcelos, 2350 Porto Alegre, RS, Brasil
carolmontanari@gmail.com

Submetido em: 28/02/2017
Aceito em: 19/04/2017

 

artigo anterior voltar ao topo próximo artigo
     
artigo anterior voltar ao topo próximo artigo