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Revista Brasileira de Psicoteratia

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Rev. bras. psicoter. 2018; 20(1):105-109



Resenha

Possuídos - da prisão do adoecer psicótico

Bug - the prison of the psychotic illness

Orlando von Doellinger

Resumo

A doença mental tem uma longa história de representação no cinema, ainda que, muitas vezes, essas representações sejam incorretas e irreais. "Possuídos", um filme de William Friedkin, lançado em 2006, apresenta, contudo, uma visão que nos parece mais verdadeira, revelando o caráter catastrófico (intrapsíquico e interpessoal) da psicose e evidenciando que essa doença é a mais inexorável das prisões. Com os dois personagens principais (Agnes e Peter) encerrados num quarto durante quase todo o filme, somos confrontados com duas formas de adoecer psicótico: a esquizofrenia de Peter, com delírios de infestação, delírios persecutórios e uma crescente desorganização do pensamento e do comportamento; e a psicose induzida de Agnes, resultado do investimento maciço em Peter, fruto de um luto (de um filho) não resolvido.

Descritores: Cinema como Assunto; Transtornos Psicóticos; Esquizofrenia.

Abstract

Mental illness has a long history of representation in motion pictures, although those representations are often incorrect and unrealistic. "Bug" a William Friedkin movie released in 2006 nevertheless, presents a view that seems truer to us, revealing the (intrapsychic and interpersonal) catastrophic character of psychosis and demonstrating that psychosis is the most inexorable prison. With the two main characters (Agnes and Peter) locked in a room for most of the film, we are confronted with two forms of psychotic illness: Peter's schizophrenia, with infestation and persecutory delusions and a growing thought and behavior disorganization; and Agnes's induced psychosis, the consequence of a massive investment in Peter due to an unresolved mourning (of a son).

Keywords: Motion Pictures as Topic; Psychotic Disorders; Schizophrenia.

 

 

Na representação cinematográfica da doença mental (e da patologia psicótica, em particular) encontramos, com alguma frequência, lugares-comuns que reverberam erradas convicções que atravessaram os tempos, do Renascimento ao romantismo do fin de siècle (Porter, 2003)1. O primeiro é a frequente associação entre a doença mental grave e a genialidade, ajudando a manter a estafada mentira que a loucura advém do cansaço, do "esgotamento" das capacidades e que, por isso, assola preferencialmente as mentes mais exercitadas, inteligentes ou portadoras de capacidades extraordinárias. A segunda alegoria é ainda mais absurda: a associação da doença mental (e da psicose) à liberdade criativa, quando a psicose é a mais inexorável das prisões.

Filmes com razoável sucesso nos últimos anos, como "Uma mente brilhante" (Ron Howard, 2001)2 "A prova" (John Madden, 2005)3 ou "O solista" (Joe Wright, 2009)4, transmitem perspectivas da doença mental que, de forma mais ou menos explícita, tendem a oferecer ao espectador uma visão que nega o caráter catastrófico (intrapsíquico e interpessoal) da psicose. Ao mesmo tempo, as técnicas cinematográficas utilizadas, nesses filmes, tendem a colocar o espectador no lugar de mero observador externo (retirando-lhe a possibilidade de duvidar e de se angustiar).

Na cinematografia mais recente, há, contudo, outros exemplos de excelentes filmes onde a representação da doença mental é, seguramente, mais verdadeira. A filmografia de John Cassavetes, os filmes de Roman Polansky (particularmente os dos anos de 1960 e de 1970), bem como alguns dos filmes de Alfred Hitchcock poderiam ser a base para um bom tratado de psicopatologia.

Mais recentemente, David Cronenberg e David Lynch são dois dos autores ainda em atividade que, sistematicamente, melhor nos dão a conhecer os meandros dos processos mentais e, consequentemente, a doença mental.

"Videodrome: a síndrome do vídeo" (1983)5 e "Spider: desafie sua mente" (2002)6 de David Cronenberg são óbvias representações da vivência do processo psicótico experienciado na unidade somatopsíquica do indivíduo (unidade presente em toda a obra deste realizador).

Do lado de David Lynch salientamos "Estrada perdida" (1997)7 ou "Império dos sonhos" (2006)8 onde o espectador é colocado na cabeça, no processo mental, do portador da patologia psiquiátrica, o que, porventura, explicará a inquietação, a incompreensão e a rejeição do grande público a estes filmes.

Por vezes, contudo, outros autores e outros filmes nos surpreendem. William Friedkin, um dos expoentes da brat pack generation e realizador de clássicos como "Operação França" (1970)9 ou "O exorcista" (1973)10 lançou, em 2006, "Possuídos"11. Filme de reduzido orçamento, "Possuídos" é um objecto cinematograficamente relevante na verdade que transmite na representação da doença mental. Ao vê-lo os espectadores não são apenas observadores da loucura; são, também, muitas vezes, confrontados com as dúvidas que certamente assaltarão alguns dos nossos pacientes.

No início há um plano picado sobre um motel, no meio de nada. É um plano que se vai repetir (antes do filme se confinar a um dos quartos desse motel) e que na medida em que se repete nos transmite uma sensação de que alguém observa (persegue?) uma das residentes (Agnes; interpretada por Ashley Judd).

No quarto, de paredes maltratadas e com um ar condicionado que funciona ao soco, vai tocar algumas vezes um telefone, sem que ninguém fale quando Agnes atende.

A dúvida, a suspeita (e quão fina pode ser a linha que estabelece o limite para a paranóia?) parece começar a instalar-se. Está alguém no outro lado do telefone? Será Agnes de facto "perseguida" pelo ex-marido? Estaremos nós, espectadores, a desconfiar demasiado?

É no trabalho de Agnes que lhe é (e nos é) apresentado Peter (Michael Shannon). A postura e a motricidade de Peter colocam-nos de imediato sobreaviso (para além do fato de que ele é o único homem visível num bar de lésbicas). Há uma lentidão, um movimento repetitivo do membro superior direito, uma obliquidade do corpo e do olhar. Há qualquer coisa...

Quando Agnes e Peter acabam por passar a noite no mesmo quarto (mas não na mesma cama, pois Peter, "filho de um pregador sem igreja nem discípulos", tinha, segundo ele, "arrumado o sexo" há muito...) há um outro sinal de alarme. E, desta vez, literal. O ruído de um detetor de incêndios é confundido com um eventual inseto e quando damos conta já a conversa vai em "envenenamentos" por "amerício 241".

O aparecimento do ex-marido de Agnes, de manhã, quando ela acorda e pensa estar a agradecer o café a Peter, não ajuda a desvanecer a ideia da conversa tida no dia anterior onde se dizia que "nunca ninguém está em segurança"...

Após Peter e Agnes terem relações sexuais (e muitas interpretações poderiam ser feitas acerca deste evento, sendo que Agnes, no final, vai acabar por fazer a interpretação delirante dela) Peter diz-se mordido no pulso (e essas "primeiras" lesões nós não as vemos) por uns minúsculos insectos. Agnes vê as lesões, mas parece não ver os insectos. Parece...

O filme passa a centrar-se no espaço encerrado do quarto, que começa a modificar-se, e, à medida que vamos sabendo novos fatos da vida anterior dos protagonistas, dúvidas e angústias também se nos levantam.

Agnes era, provavelmente, vítima de violência doméstica; terá perdido o filho num supermercado; e está em fuga de um ex-marido acabado de sair da prisão. Peter é um veterano da Guerra do Golfo, de onde foi evacuado por um provável surto psicótico e está, também ele, em fuga (de um provável internamento psiquiátrico e de um tal Dr. Sweet, saberemos mais tarde).

Assistimos, ao longo do filme, à espantosa representação de duas diferentes formas do adoecer psicótico.

O luto não resolvido de Agnes vai conduzi-la a um investimento maciço em Peter (não por acaso, só uma vez têm relações sexuais, para que depois a relação se torne em algo de cuidador, de materno-filial, evidenciada, até, numa lindíssima "Pietà"). E é esse investimento que a conduz à loucura. No caso dela, não o fazer, não ficar louca (psicose induzida? Mas não por substâncias, ainda que consuma cocaína) seria perder Peter. E perdê-lo (perder o filho uma vez mais?) seria insuportável.

No caso de Peter perceberemos que a situação é bem grave e já antiga. E não uma "psicose delirante com tendências esquizofrénicas" (como dirá o Dr. Sweet) mas sim uma esquizofrenia. Nenhuma psicose delirante se apresenta com tamanha exuberância sintomática e com total interferência na conduta social do paciente.

Atentemos nos monólogos finais de ambos os protagonistas. Num quarto que foi sofrendo graduais alterações e agora se encontra revestido por papel de alumínio para prevenir as transmissões de sinais por parte dos insectos, ouvimos Peter e percebemos a extensão do sistema delirante e das bizarras associações que o conduzem das experiências militares a chips introduzidos em todos os seres humanos, de acções da CIA ao Unabomber (Ted Kakzynski) ou a Timothy Mcveigh. Isto depois de ter morto o Dr. Sweet, que não passaria de "uma máquina"...

Depois ouvimos Agnes que, num processo de interpretações e associações delirantes, vai atingir a "revelação" final, a verdadeira epifania que "ligará" tudo o que lhes diz respeito (desde o desaparecimento do seu filho até à multiplicação dos insectos).

O final, o suicídio, é então encarado como a única libertação possível daquela prisão.

Um par de personagens principais e três acessórias (em quem não podem confiar); um quarto cada vez mais claustrofóbico; um sentimento de perseguição sem tréguas; uma prisão sem fim. Agnes e Peter estão enclausurados na loucura. E creio que nós estivemos muito perto deles e das suas dúvidas. E, de forma admirável, William Friedkin nem por uma vez nos mostrou o que eles viam: apenas sabemos o que eles diziam ver e sentir, exatamente como na realidade clínica.

Também daí virá o mal-estar que este filme poderá transmitir a quem o vê. Coloca dúvidas. Angustia. Não é "bonito" de se ver. Mas a esquizofrenia é assim...


REFERÊNCIAS

1. Porter R (2003). Breve historia de la locura. Madrid/México, D.F.: Turner Publicaciones/Fondo de Cultura Económica

2. Howard R (realizador). 2001. A beautiful mind (filme). EUA: Universal Pictures.

3. Madden J (realizador). 2005. Proof (filme). EUA: Miramax

4. Wright J (realizador). 2009. The soloist (filme). EUA: DreamWorks Pictures.

5. Cronenberg D (realizador). 1983. Videodrome (filme). Canada: Fimplan International/Guardian Trust Company.

6. Cronenberg D (realizador). 2006. Spider. Canada/Reino Unido/França: Odeon Films.

7. Lynch D (realizador). 1997. Lost Highway (filme). França/EUA: October Films/CiBy2000/Asymmetrical Productions/Lost Highway Productions LLC.

8. Lynch D (realizador). 2006. INLAND EMPIRE (filme). França/Polónia/EUA: StudioCanal/Fundacja Kultury/Camerimage Festival/Absurda/Asymmetrical Productions/Inland Empire Productions.

9. Friedkin W (realizador). 1971. The French connection (filme). EUA: D'Antoni Productions.

10. Friedkin W (realizador). 1973. The exorcist (filme). EUA: Warner Bros.

11. Friedkin W (realizador). 2006. Bug (filme). EUA: Lions Gate Films.










PhD - (Psiquiatra e Psicanalista. Diretor do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa) - Penafiel - Portugal

Correspondência
Orlando von Doellinger
Avenida padre Américo, 210
4564-007 Guilhufe - Penafiel - Portugal

Submetido em 21/07/2017
Aceito em: 20/02/2018

Instituição: Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa

Colaborações: Resenha elaborada por Orlando von Doellinger.

 

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